Aprendendo a conviver com a perda
São sentimentos que
surgem quando recebemos a notícia do falecimento de uma pessoa importante em
nossa vida. Nosso corpo sente-se como se tivesse também tido uma falência. Não
entendemos ao certo o que estamos sentindo, ficamos atordoados, fora do tempo.
Sabemos apenas que algo grave e denso ocorreu.
À medida que nos
recuperamos deste choque inicial, enfrentamos a realidade da perda: o que e
onde mudou. A ausência da pessoa que se foi evidencia como estávamos nos
apoiando nela em certos aspectos de nossa vida. O luto torna-se, então, um
período de conscientização da necessidade de recuperarmos nossa própria
capacidade de auto-sustentação. Em algumas áreas de nossa vida, será a primeira
vez que estaremos aprendendo a ser autônomos!
Sentimo-nos como um
jogo de quebra-cabeças que foi desmontado e remexido. Ao tentarmos unir as
peças que estavam separadas umas das outras é que nos damos conta que elas já
estavam distantes entre si há muito tempo, muito antes do falecimento da pessoa
que despertou o processo de querer juntá-las. A ausência daquele que se foi
evidencia onde e como estávamos rompidos, distantes de nós mesmos. Logo, é hora
de perceber nosso verdadeiro tamanho sem a presença e a dinâmica dessa pessoa
que preenchia tantas lacunas em nosso processo de autoconhecimento.
O luto é um tempo
de reconstrução de nossa auto-imagem. Na fragilidade da dor da perda,
desvendamos camadas mais profundas de nosso interior; é lá encontramos feridas
não curadas. Durante o luto, nossos usuais mecanismos de defesa frente à dor
falham. Já que não é possível evitar a dor, temos de aprender a enfrentá-la. É
hora de nos perguntarmos: Do que nossa dor realmente se lamenta? Há quanto
tempo essa dor pede para ser vista e tratada?
Mesmo sem ter a
resposta, nossa consciência nos pressiona a fazer algo para sair de onde
estamos atolados. Alessandra Kennedy escreve em seu livro: O pesar revolve os mais profundos
níveis da psique trazendo à tona questões não resolvidas, que silenciosamente
sabotam a nossa vida. Os sonhos nos informam sobre a presença dessas questões e
fornecem orientação de como resolvê-las. Quando ignorados, podem se repetir ou
surgir de forma mais dramática, talvez transformando-se em pesadelos.
Não fomos educados
para lidar com a dor da perda. Instintivamente, aprendemos a conter nosso amor
na tentativa de nos protegermos contra a dor dessa realidade: de que um dia
iremos nos separar daqueles com quem convivemos tão de perto. Na economia do amor
só há perdas. O luto nos ensina a despertar o amor por nós mesmos, e desta
forma ampliamos nossa abertura com os outros. Caem as resistências, pois
passamos a lidar com a vulnerabilidade da vida. O luto nos ensina que, pelo
resto de nossas vidas, teremos que aprender a aceitar a inevitabilidade de
nossa própria mortalidade.
Um novo olhar de
auto-reconhecimento começa a surgir quando passamos a acolher, com afeto e
tempo, a fragilidade diante da dor da perda. As questões inacabadas vêm à tona:
tudo que ficou por ser dito, escutado, feito e compartilhado. Revemos todas as
áreas de nossa vida: afetiva, financeira, profissional e espiritual. Surge a
coragem, gerada pelo desejo sincero de mudar o que for preciso mudar.
Durante o processo
de luto, nos damos conta, também, das falsas expectativas que tínhamos em
relação àquele que faleceu. Se elas não se realizaram em vida, agora é a hora
de aceitar nossa decepção, pois não há mais como remediá-las. Chegou o momento
de agradecer por tudo que recebemos e de aceitar o que não pudemos receber. A
partir daí, surge em nós um processo profundo de reavaliação de nossas
expectativas atuais. É tempo de nos darmos uma nova chance, real e possível.
O luto é um
processo que foge ao nosso controle e por isso pode durar muito mais tempo do
que imaginamos que possa durar. Mesmo depois de nos recuperarmos, ainda iremos,
inesperadamente, nos encontrar em situações que fazem com que sintamos que
caímos outra vez no vácuo da perda. Cada vez que nos erguermos, retornaremos
mais inteiros. Como escreve Robin Robertson diz: Não há mudança que não principie na
escuridão da alma humana. Primeiro, temos de descobrir uma entrada para a
escuridão, a seguir, temos de acender uma velinha no escuro para que possamos
procurar nosso eu futuro e, por fim, temos de nos unir a ele. E isso requer
determinação, paciência e, mais que tudo coragem.
É bom lembrar que
do mesmo modo que tivemos de aprender a nos permitirmos sentir a dor para
superá-la, teremos que nos permitir sentir a alegria para celebrar o fato de
estarmos vivos. Aqueles que se foram ensinam os que ficaram a viver melhor.

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